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Viagem no tempo com o Inspector George Gently

Sábado, 03.09.16

 

Cá volto eu às séries inglesas. Novamente com um inspector da polícia. E desta vez nos anos 60.

Como criança nos anos 60, assimilei apenas o lado bom dessa década, a música e a roupa. A alegria e a frescura de todos os inícios, é o que me lembram os coloridos anos 60.

O inspector George Gently vem-nos lembrar o lado sombrio dessa década. A situação das mulheres, por exemplo, a vulnerabilidade das crianças, a violência juvenil, as drogas, a desconfiança entre comunidades, o racismo. 

 

Gently, tal como o seu nome, é uma personagem amável e compassiva com os agredidos e corajoso e implacável com os agressores. É um homem exigente consigo próprio e com os outros, um homem de valores que procura transmitir ao seu aprendiz, o irreverente John Bacchus. Será através do boxe que pratica desde o tempo de jovem soldado, que demonstra ao jovem o respeito por si próprio e pelos outros, mesmo os adversários. A resposta à provocação de que, com a sua idade, se deveria dedicar à pesca, será pô-lo, gentilmente, K.O.

 

A personagem Gently surge-nos com um modelo de adulto responsável, que conheceu o sofrimento na guerra e na vida pessoal com a morte da mulher, mas que não desarma. Tem um propósito que abraça de forma tranquila, sem dramatismo. É com essa gentileza que lida com o lado B da vida.

 

Mas a série não me impressiona apenas pelas personagens e pelo guião. O cenário e os adereços estão perfeitos. A atmosfera da época. E a música é fabulosa. 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:05

A compaixão e o amor são a melhor resposta à violência

Terça-feira, 16.04.13


Depois do choque da visão da violência no local mais inesperado, uma maratona numa rua cheia de pessoas, de uma cidade a festejar uma data histórica, a calma de Obama foi a resposta mais adequada a este drama indescritível. Lembrou a resposta pronta e apoio de todos os que estavam perto das vítimas, resposta de empatia e compaixão, e nesse sentido está correcto falar-se de heroísmo: apesar do medo, ajudar quem está ferido e apoiá-lo até chegar a ambulância, em vez de entrar em pânico ou em fuga, a primeira reacção de sobrevivência. Cada um respondeu de forma adequada a uma situação trágica que decorre da violência, como alertar outras pessoas ou ser dador de sangue. Nos hospitais não faltaram médicos prontos ao serviço, incluindo estudantes.


Mesmo que este acto de extrema violência se venha a relacionar com alguma intervenção americana bélica no exterior (e ainda não se ouviu essa confirmação a nenhuma voz oficial), nada perde da sua indescritível perversidade: escolher civis indefesos numa prática desportiva inofensiva.

A verdadeira coragem e integridade interior manifesta-se na empatia com a vítima, na sua fragilidade e desamparo, e não na identificação com o autor da violência.

 

A violência pode ter muitos rostos mas parte da mesma origem: o ódio e o vazio, a glorificação da morte e da destruição, a ausência de empatia.

O ódio tem uma única raíz: ódio de si mesmo ou desprezo por si mesmo (segundo Arno Gruen, por ausência de amor em idade muito precoce e/ou vítima de qualquer forma de violência física ou psicológica), vazio emocional, incapacidade de empatia (ler A Traição do Eu, da Assírio e Alvim, e Falsos Deuses, da Paz Editora).

Arno Gruen explica a complexidade das diversas expressões da violência actual em A Loucura da Normalidade (Assírio e Alvim).

O melhor antídoto da violência é o amor e a empatia (compaixão), o respeito por si próprio e pelo outro, sentir a dor do outro como sua. Por isso a resposta pronta dos que apoiaram as vítimas logo após o impacto da explosão é verdadeiramente o melhor antídoto de actos de violência indescritíveis como este.

 

Quem pratica um acto de violência tem como intenção provocar uma determinada resposta que tenha impacto: medo, pânico, sofrimento. A destruição preenche o seu vazio interno. Qualquer tipo de destruição.

Agora reparem: vivemos numa época que enaltece e vende a violência como produto de audiências. É a cultura trash no seu melhor. Séries televisivas com diversas formas de matar, filmes com explosões de todo o tipo, um espectáculo que vende. O fascínio pelas armas sofisticadas, que só consigo entender como instrumento de compensação de uma falta qualquer. Tudo servido em sequência e acessível a crianças e a adolescentes.

Enaltecer a violência como espectáculo para consumo de massas é contribuir para banalizar a violência e torná-la quase aceitável em vez de profundamente reprovável. E muitos dos que praticam este tipo de violência indescritível procuram ter um forte impacto, uma grande publicidade a todo esse caos que querem provocar.

Sim, a verdadeira coragem e integridade interior manifesta-se na empatia com a vítima, na sua fragilidade e desamparo, e não na identificação com o supostamente mais forte autor da violência (linguagem do poder).


A par desta cultura trash vemos surgir uma cultura da amabilidade, própria de uma consciência emocional, empática, de respeito por si próprio e pelo outro e que hoje, com a comunicação universalizada, ultrapassa a distância geográfica e as especificidades culturais.

Seria muito mais saudável, a meu ver, a escolha de guiões que festejem a vida, mesmo as coisas mais simples da vida, em séries televisivas, em jogos de computador e em filmes. Podem até referir-se à violência mas sem a glorificar, mostrando o rasto de destruição que deixa atrás de si, a sua natureza profundamente doente.



Entretanto também aqui uma análise da cultura de morte nos States: em Wall Street (concordo), em Hollywood (cá está, os filmes e as séries televisivas) e na poderosa indústria de armamento (que tinha, como figura mediática, um actor do seu lado).

E pensar que os Peregrinos do Mayflower idealizaram um mundo de tolerância, de liberdade de expressão, de liberdade religiosa. Boston está ligada ao início dessa América idealizada.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 18:10

Empatia e compaixão, a base da autonomia

Domingo, 14.08.11

 

Arno Gruen, psicanalista que tem estudado os fenómenos de violência na sociedade actual, cita n’ A Traição do Eu Ortega e Gasset, que só acreditava em náufragos, para melhor nos esclarecer que só o indivíduo capaz de sentir a dor, a sua e a do outro, e sentir o desamparo, é capaz de empatia e compaixão, viver afectos genuínos, respeitar-se a si e aos outros.

Agora analisemos a questão nesta perspectiva: estão a ver um indivíduo com estas características adaptar-se bem a normas e a práticas organizacionais que se regem pela lógica do poder, alheias às pessoas, à sua vida, às suas necessidades, e quantas vezes, contra as suas vidas e necessidades vitais? Quantos episódios dramáticos já não ouvimos sobre indivíduos que, no limite, preferiram morrer a colaborar na destruição de outras vidas? São esses os náufragos de Ortega e Gasset: porque passaram pela dor do desamparo, sentem a dor de outros como se fosse sua (empatia), encaram a violência na perspectiva da vítima e a vítima é uma vida, tem uma história e um nome, é carne e ossos, sentimentos, emoções. Se lhes é pedido ou exigido que esqueçam esse pormenor – e a maioria das organizações rege-se por questões que desprezam esta realidade humana -, hesita, questiona-se, reflecte, mas não obedece de forma acrítica, fria, mecânica. A vida, o respeito pela vida, está acima de qualquer outro objectivo na sua escala de valores.

As organizações têm formas de o convencer, e é sempre na base do suposto bem comum, de horizontes mais vastos ou, quando essa argumentação falha, na base da ameaça velada, mas o nosso náufrago não se deixa convencer facilmente: a sua bússula interior resiste à manipulação exterior, por mais elaborados que sejam os argumentos. E se não estiver em condições de não obedecer, adoece: dores de cabeça, úlceras, fobias, ataques de pânico, neuroses, estados depressivos.

Precisamente: muitos daqueles que encaramos como doentes são aqueles que estão mais próximos da sua autenticidade. E muitos daqueles que consideramos saudáveis, porque se adaptam sem questionar às normas e práticas das organizações, são incapazes de sentir a dor do desamparo, incapazes de sentir empatia e compaixão. A sua estrutura, digamos assim, formou-se a evitar essa dor muito precoce, identificando-se, para se defender da vulnerablidade do desamparo, com o vencedor. Como se a vida passasse a ser uma questão de ganhar ou perder, vencer ou falhar. Como se as pessoas não fossem por natureza frágeis e vulneráveis, contraditórias e paradoxais, mas apenas vencedores ou falhados, os “nossos” e “os outros”. É evidente que aqueles que se regem por esta lógica do poder irão sentir-se atraídos pelo poder e vemo-los em organizações, em lugares de gestão ou a gravitar à sua volta.   

Pensem então por momentos nas implicações desta realidade: quem encontramos em lugares de poder, de exercer o poder, de decidir pelas nossas vidas, são muitos daqueles que se regem por normas e práticas alheias às nossas vidas, e, no limite, contra as nossas vidas. Dito assim, é assustador, não é? Agora tentemos transpor tudo isto para o que se está a passar no ocidente, sobretudo EUA e Europa. O que é que estes gestores do poder político e económico andaram a fazer? E o que é que insistem em continuar a fazer? A jogar com as nossas vidas, as vidas de pessoas reais, carne e ossos, sentimentos e emoções. Percursos e expectativas reais. Se as respeitassem diziam-lhes a verdade. Se as respeitassem reconheciam os erros e mudavam de rumo. 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 23:01








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